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O skate e a reforma do Anhangabaú

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Ano de pandemia, eleições, uma reforma “polêmica” iniciada no ano anterior. Faz um tempo que pensei em escrever mais um post sobre espaços urbanos skatáveis, mais especificamente este texto sobre o skate e a reforma do Anhangabaú.*Capa da postagem com fotos da Luiza Erundina (que liberou o skate em 1989 – que havia sido proibido um ano antes por Jânio quadros ), do estudo tridimensional do novo memorial do skate pela SPUrbanismo, o Rafa Murolo apresentando o projeto pra rapaziada em foto de Murilo Romão e uma foto clássica de @alexbrandão para a revista Trip.

Obviamente o tema é complexo, poderia servir de base inclusive para teses e estudos aprofundados (em urbanismo, sociologia, antropologia, gestão ou administração pública). A intenção do post é bem mais singela; apenas trazer algumas reflexões e opiniões como alguém que ama as duas coisas: tanto o skate quanto a arquitetura e o urbanismo. Minhas opiniões que serão colocadas aqui jamais gerarão qualquer tipo de consenso, ou mesmo integrarão algum. E tudo bem.

Demorei para escrever o post, por característica própria eu costumo ser ponderado e em qualquer assunto tento buscar informação antes de opinar. Sou assíduo defensor da prática do skate, sofri com a falta de espaços adequados quando era moleque, ao mesmo tempo em que a prática na rua era vista com preconceito. Skate era algo entre a transgressão e a resistência. O skate que sempre foi contra-cultura hoje está se popularizando, virando inclusive esporte olímpico. Como qualquer mudança, essa nova fase do skate possui aspectos negativos, mas outros muito positivos também. Infelizmente não vai ser possível abordar tudo isso num único post.

Alguns comentários iniciais voltando ao tema do post: a cidade é por definição o local de encontro, e com isso são gerados conflitos. E a política é a arte da mediação destes conflitos. Projetos urbanos são naturalmente polêmicos pois refletem decisões políticas sobre o uso coletivo do espaço. Não existe projeto perfeito e nem consenso quando se trata de equipamentos públicos (mesmo que seja possível conseguir um entendimento mais generalizado em alguns itens – como na leitura do fato que o skate possuia um papel cultural e histórico importante no local que deveria ser considerado). Mas a história somente pode ser escrita no presente, só no sentido ao futuro… A cidade se reconstrói continuamente em cima de si mesma e continuará sempre evoluindo. Felizmente para os skatistas os espaços urbanos tendem cada vez mais serem mais acessíveis, lisos resistentes. Por que não dizer criativos também.

É compreensível a revolta dos skatistas com a demolição das clássicas arquibancadas de granito, Me solidarizei na mesma hora com o tema e fiquei extremamente triste. A própria arquiteta Rosa kliass (autora do projeto da praça anterior) diz que os projetos arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos devem ter amarração com aspectos físicos naturais geográficos e culturais do sítio. É realmente intrigante que o projeto tenha sido levado à frente sem considerar o patrimônio imaterial histórico do skate no local. Hoje felizmente eu posso escrever este texto a tranquilidade de saber que foi resolvido o impasse e os skatistas foram atendidos, ao contrário do que ocorreu por exemplo na histórica LovePark na Filadélfia.

Graças à união movimentação dos skatistas foi conquistado um “memorial” que está em execução na nova praça. Eu não conseguiria citar e agradecer todos os envolvidos aqui, mas posso dizer que foram fundamentais nesse processo o Klaus Bohms, o Marcelo Formiga, o Murilo Romão entre tantos outros… Além da sorte enorme para os skatistas termos na prefeitura na época o Rafael Murolo que é um excelente arquiteto (além de skatista, amigo e colega de trabalhos anteriores que participou comigo de um curso de construção de pistas, e que hoje em dia vira e mexe batemos papo sobre outros projetos pra skate). Ele encabeçou então uma articulação entre o interesse dos skatistas com a viabilidade prática das idéias junto aos técnicos do projeto e da obra. Nas diversas imagens e vídeos dos envolvidos que circulam nas redes sociais vemos por exemplo a maquete do memorial (criador e criatura numa das fotos na capa desse post). A maquete e o estudo foram elaborados a partir de um levantamento preciso arquibancadas originais “históricas”; desde das formas gerais das até a sua composição em cada tipo de pedra (piso, borda e face) e então pensadas em como poderiam ser reutilizadas da melhor forma. Vale destacar que este trabalho não era sua função dentro do órgão público, mas ele representou pelo skate e se desdobrou para desenvolver isso pelo amor a causa.

Ah, muito importante comentar e linkar aqui o documentário produzido sobre essa pressão do movimento e a conquista dos skatistas, o filme “Valeros” pelo post na Cemporcentoskate.

Sobre as polêmicas da obra; embora eu concorde com com algumas críticas sobre a obra (nesse link um texto bastante contrário à intervenção pelo LabCidade da Usp – talvez até exageradamente contrário na minha modesta opinião), principalmente na destinação da verba (com grande razão neste ponto, no atual momento da cidade, do país e do mundo), ou até sobre questões técnicas quanto a futura manutenção dos chafarizes (bom, conceitualmente é interessante no projeto uma referência a água que estava originalmente presente no sítio; o córrego presente no vale esté hoje enterrado abaixo do túnel, e este abaixo da laje da praça…. Esta presença de água poderia quebrar a aridez da nova esplanada), sei que a reforma faz parte de um plano maior de revalorização do centro e de uma visão de cidade mais acessível e plural. Não vejo portanto a reforma como simples política higienista, se fosse articulada com outras políticas de moradia, saúde, inclusão. Quando o projeto estava sendo desenvolvido, diversas destas outras questões estavam sendo discutidas também (Plano diretor, Fundurb, mobilidade, cliclovias, merendas orgânicas de agricultura familiar, o programa internacionalmente premiado para a cracolândia “braços abertos” – que foi desmanchado, as secretarias de igualdade racial, de defesa do direito das mulheres e transcidadania, os conselhos participativos). Mas é triste ver que apenas a parte que atende ao interesse dos grupos poderosos acaba por ser implementado.

O tempo para projetos urbanos normalmente não é compatível com a periodicidade de 4 anos da gestão política. O uso político e até eleitoreiro da reforma e sua inauguração (que acontecerá em breve – no momento que escrevo esse texto) não diminui o mérito de alguns dos pontos que serão solucionados no novo espaço. Um deles é inclusive argumento da Rosa Kliaas; de que o Anhangabaú é onde as periferias se encontram. Uma reforma de piso não deve tirar esta característica, mas sim ampliá-la pela simples questão de acessibilidade. Outro é que o espaço foi projetado pensando na liberdade e nas circulações em qualquer direção. O novo projeto vai reforçar essa característica. O piso de pedras portuguesas é bacana e tem inclusive grande referência histórica no nosso país, mas vejo como pior em questões de acessibilidade, de manutenção e de limpeza (e infelizmente pelo nosso histórico de zeladoria pública – que não isenta a necessidade de boa gestão no concreto polido também). As novas e diversas possibilidades de uso são condizentes com uma cidade mais aberta… algo que se pensa desde as discussões iniciais do projeto.

Apesar de a reforma parecer “de sopetão”, o projeto foi iniciado lá em 2007 com participação ativa no seu fomento pelo ITDP (Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento). Me recordo inclusive na época da faculdade das diversas discussões sobre o tema, infelizmente com o skate sempre tendo papel secundário. A reforma foi colocado como diretriz pública em 2013. Em 2014 houve um processo participativo e depois foi feita a concorrência para o projeto básico. Esse projeto básico serviu então de base para licitação da obra junto com o projeto executivo que foi feita em 2017 (ah, acho péssimo ser feito desta forma de licitação com base em projeto básico, algo que nosso conselho tanto luta contra – mas essa é outra questão). O projeto passou então por diversas mãos. A análise sobre interesses privados e gentrificação é polêmica (e pertinente), considero muitíssimo importante a implementação de políticas que consigam manter os moradores originais quando uma nova infraestrutura pública valoriza uma área. As ZEIS (Zonas especiais de interesse social) no zoneamento é uma delas, embora saibamos que não garantem a permanência (com a valorização até os imóveis de conjuntos habitacionais são vendidos e sua população sai para morar mais longe e mais barato). Hoje existem discussões de aluguel social e de outros instrumentos… Que sejam testados! Mas considero que seria maléfico também congelar a cidade impossibilitando seu desenvolvimento com infraestruturas que acabam se tornando polos de atração.

Ouvi um argumento dos skatistas de que o centro não é na Avenida Paulista. E estão cobertos de razão…. O espraiamento da cidade é algo que remete inclusive a época da criação desta avenida e depois das políticas a favor do urbanismo rodoviário (privilegiando o subúrbio e virando as costas para o centro). A iniciativa e a tendência atual é tentar reverter esse processo. Imagine agora por exemplo a possibilidade de uso cívico de um espaço tão central e icônico, que foi renegado infelizmente a um papel acessório/secundário desde a década de 90. Assim como tivemos na “Avenida Paulista aberta” existem questões técnicas de incômodo e de conflitos em qualquer infraestrutura. Mas deve-se considerar a redução que custos diretos e indiretos no longo prazo ao possibilitar esses usos lá sem ter que fechar essa importante avenida da cidade.

Embora os políticos atuais pensem no lucro que isso pode gerar, nós urbanistas pensamos na melhora de qualidade de vida para uma boa parte da população ao privilegiarmos novamente o centro como uma área dinâmica e viva, não só de trabalho. Um outro exemplo de uma reforma que foi boa para todos, incluindo os skatistas (e da mesma forma, apenas com muita luta) foi a reforma da Praça Roosevelt. Ambos projetos possuem aspectos interessantes ao trazer a população e a sua atenção para região central. Isso está diretamente relacionado com questões de lazer e cultura mas também habitação; de morar no centro mais próximo do trabalho, de mobilidade e até de democracia e civilidade!

Avante por uma cidade melhor e mais skatável.


Fabio Lanferhttp://www.lanfer.arq.br/
Arquiteto e Urbanista pelo Mackenzie (2008). Está sempre em busca de formas inovadoras e tecnologias mais sustentáveis para criar os seus projetos.

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Arquiteto e Urbanista pelo Mackenzie (2008). Está sempre em busca de formas inovadoras e tecnologias mais sustentáveis para criar os seus projetos.
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