Pequenos espaços: projetos para uma vida minimalista


Este texto surgiu de um processo pessoal com o qual tenho me deparado (além dos projetos de arquitetura para meus clientes), que é a adaptação aos pequenos espaços e de uma reflexão sobre as mudanças que isso pode trazer no modo de vida – principalmente das pessoas que moram nas grandes e médias cidades. Também darei algumas dicas de como enfrentar o problema de espaço.

Antes de comentar os aspectos mais voltados ao projeto ou das soluções para os tais espaços pequenos, queria falar um pouco do conceito.
Fazer-se caber em um espaço menor tem muito a ver com eficiência no design mas muito também com a ideia de possuir menos coisas. Se você passa por uma mudança de imóvel para um menor, certamente tenderá a se desfazer de itens que não precisa ou não usa mais. Porém, esse processo de redução pode ser benéfico se adotado com maior frequência.
Num mundo capitalista e consumista, ir contra a tendência de possuir tudo aquilo que seu dinheiro possa comprar, pode parecer um discurso ‘inútil’, mas é uma postura que tem diversas vantagens:

  1.  Um menor consumo significa também um menor impacto ambiental;
  2.  Possuir menos coisas significa menos tempo dedicado à elas no dia a dia, seja na limpeza, na manutenção, organização ou mesmo no tempo gasto nas escolhas entre as opções do que utilizar;
  3. Economia. Além dos itens anteriores citados, ter menos significa gastar menos; seja no valor de cada item seja no espaço de armazenamento.

Só para conceituar, o minimalismo surgiu como movimento artístico na década de 60 mas passou a ter desdobramentos em diversas áreas culturais e até científicas. Na arquitetura e no design o minimalismo surgiu um pouco mais tarde (iniciando na década de 80) e principalmente como uma reação ao pós modernismo; uma retomada então da simplicidade/eficiência do modernismo mas com uma maior ainda redução estética: simplificação ou limpeza proposital, como linguagem. Hoje o estudo do mínimo contrapõe até os modos de vida atuais, uma reação ao consumismo e os padrões de nossa geração. Algo como o ditado que diz “quanto mais coisas você possui, mas as coisas te possuem”.

Essa tendência tem ganhado força, juntamente com outras iniciativas coletivas referentes aos recursos materiais e humanos que possuímos, por exemplo; aplicativos ou estabelecimentos voltados ao aluguel e compartilhamento de imóveis, táxis compartilhados / caronas, coworkings, lavanderias coletivas, bibliotecas comunitárias etc etc etc.

Ok. “Ter menos e ser mais” parece interessante, mas como isso se reflete no meu espaço?

Vamos então à parte prática:

Assim como escolhas mais conscientes do que possuir, deve-se estabelecer prioridades de uso do espaço. Se um objeto substitui outros anteriores, ele deve ser melhor (ou mais multiuso) que estes. Se um apartamento menor deve comportar todas as atividades de um maior, ele deve ser minuciosamente pensado. E tudo isso é muito pessoal, mas vou colocar aqui algumas dicas de cada ambiente ou função que a casa deve ter:

O quanto priorizar na cozinha?

Vou começar pelo item no qual eu menos acredito numa redução. A cozinha tem ganhado cada vez mais importância nos projetos residenciais, e não seria diferente mesmo num mini-apartamento. Muitas quitinetes (ou “kitnets”), a maioria na verdade, não tem uma cozinha propriamente dita mas sim uma “copinha” apenas com frigobar, microondas, pia e cooktop. Abaixo dois exemplos:

Pequenos espaços: projetos para uma vida minimalista  Pequenos espaços: projetos para uma vida minimalista

Apto anunciado na internet ( http://locacoesimoveis.blogspot.com.br/2015/08/locacao-consolacao-codigo-inc-018l.html) e um outro que visitei para clientes.

Embora bonitos/arrumadinhos, não cabem os eletrodomésticos padrão. Principalmente a geladeira, que é o maior item. Se valem da idéia de que “jovens” e “contemporâneos” comem na rua, porém isso é caro, e até injusto com quem prefere se dedicar as próprias refeições.

O quanto é importante ter uma cozinha completa para você? Pessoalmente, eu prefiro ter uma cozinha pequena -mas completa- e fazer concessões em outros itens, mas dependerá do modo de vida do cliente.

Abaixo uma cozinha que projetei, diminuta mas com quase tudo que uma cozinha grande teria – ainda que com concessões, seja de espaço ou de funcionalidade (geladeira pequena com freezer, forno elétrico com microondas no mesmo aparelho, pia com cooktop pequeno, depurador, filtro de água…. até um espaço para lava louças – item “raro” em apartamentos estúdio). Próximo.

Pequenos espaços: projetos para uma vida minimalista

E o quarto, consigo separar?

Ao analisar o mercado destes ‘mini-apartamentos’ vejo que é muito comum a divisão dos ambientes – normalmente feita pelos próprios moradores – prejudicando iluminação e ventilação natural (isso devido ao fato da maioria destes imóveis possuírem somente uma janela). Na minha opinião isso acaba criando dois ambientes ruins ao invés de um ambiente bom que acomode todas as atividades. Abaixo uma foto a partir de uma cozinha (minúscula) para uma sala mal dividida em duas:

Pequenos espaços: projetos para uma vida minimalista

O quão importante é a privacidade de um quarto isolado para você? Para ajudar nesta decisão, avalie com qual frequência há a necessidade de ambientes separados para atividades “conflitantes” ao mesmo tempo. Por exemplo:

Dormir x fazer uma refeição, estudar x ver tv(ou escutar música), receber visitas x dormir (ou se trocar), etc etc..

Não pareceria mais lógico por exemplo se trocar no banheiro ao receber visitas que irão dormir no mesmo imóvel do que ter uma sala escura ao longo de todo o pedíodo de moradia?

Como comentei acima é uma decisão pessoal, mas vale colocar estas questões para serem pensadas.
A possibilidade ou não de divisões varia muito de projeto para projeto, de cliente para cliente, de imóvel para imóvel mas simplificadamente podemos avaliar que:

  • Apartamentos a partir de 40m² ou 35m² (talvez até um pouco menos dependendo da disposição da planta) você conseguirá ter um quarto privativo ou uma área para a cama isolada bem dividida.
  • Com 30m² ou 25m² para baixo dificilmente você conseguirá dividir com qualidade o espaço a não ser isolar o banheiro.
  • Menos de 20m² começamos ao “extremo” de multifunções, soluções de design que tornam a vida possível nestes minúsculos espaços.

Como resolver o WC e a área de serviço?

Possuir uma área de serviço é ótimo, mas e se o imóvel for muito pequeno e não possuir? A solução ideal é então o ‘serviço’ “invadir” o banheiro, levando a máquina de lavar (se possível uma lava-seca) e o varal. É bom pois o barulho quando funcionando fica mais isolado e a roupa secando incomoda menos.

Pequenos espaços: projetos para uma vida minimalista

E se não couber? Existem outras opções. Não gosto tanto assim da solução, mas é possível colocar a máquina de lavar abaixo da bancada na cozinha (ou junto dela) . Se não couber nem na cozinha existem máquinas menores também, embora mais difíceis de achar.

Idéias para a cama! :

Grande parte do tempo num imóvel passamos dormindo e devemos ter um espaço confortável para isso. Ainda assim há a questão da cama ser o item que mais ocupa espaço num imóvel pequeno. A solução que eu procuro é primeiramente tentar criar uma área isolada para dormir e se não for possível, criar uma forma de diminuir o espaço ocupado pela cama dando privacidade a ela ou escondendo a mesma. Vejo três alternativas para isso:

  • 1) Cama elevada ou suspensa: o famoso conceito de beliche.

Prós: Permite outra atividade em baixo (sofá/escritório/closet etc). Contra: Impacto visual (e o pé direito do apartamento tem que ser alto para que fique bom).

Pequenos Espaços: Projetos Para Uma Vida Minimalista Pequenos Espaços: Projetos Para Uma Vida Minimalista

*Procure também por “loftbed” ou cama mezanino e encontre diversas soluções na internet.  Fonte das imagens: https://expandfurniture.com/product/diy-loft-bed-kit/
  • 2) Cama retrátil: Solução incrível, a opção mais sofisticada para economizar espaço.

Prós: A cama ocupa o espaço de um armário quando fechada (como basculante). Contra: É caro e ainda não encontrei fornecedor de qualidade no Brasil. Mas é tendência certa.

Pequenos espaços: projetos para uma vida minimalista Pequenos espaços: projetos para uma vida minimalista

*A fonte das imagens é de uma famosa empresa italiana que comercializa móveis inteligentes: Resource Furniture
  • 3) Cama deslizante + Plataforma: Solução criativa!

Fonte: http://www.homedit.com/clever-space-saving-beds-can-slide-away-hide/.

Esconder a cama deslizante debaixo de uma plataforma que divide o ambiente.

Prós: É talvez o que seria o meio termo entre impacto visual e economia de espaço com custo mais acessível. Contra: O desnível ou degrau deve ser bem pensado, quanto a circulação, espaço de abertura da cama, nível da plataforma, etc.

A sala é tudo:

O ambiente social é o mais múltiplo uso dos ambientes de uma casa, e acaba se tornando o principal.
Soluções de projeto permitem o uso do espaço para as diversas atividades; jantar/estar/assitir filmes/receber visitas/estudar/brincar.
Os poucos móveis passam a ter mais importância, então é preciso pensá-los para esse múltiplo uso. Busque referências e…

INSPIRE-SE!!!!

Como imagens valem mais que mil palavras, vou colocar aqui quatro vídeos de referências muito inspiradoras. Espero que gostem:

  • O primeiro é do arquiteto e designer Graham Hill, com seu famoso projeto chamado life edited. Em 2009 ele comprou dois apartamentos em Nova Iorque pra mostrar para as pessoas que elas poderiam morar bem possuindo menos coisas e ocupando menos espaço. Para levar a diante ele teve ajuda de um financiamento coletivo e de uma empresa de marketing que lançou um concurso de projeto para o espaço. Os vencedores foram os romenos Catalin Sandu e Adrian Iancu. A reforma propriamente dita ficou a cardo de outro escritório, o Guerin Glass Architecture. Depois a iniciativa deu tão certo que ele criou uma empresa com o mesmo nome.

  • O segundo é um projeto de um proprietário chamado Christian Schallert que criou um apartamento maluco e muito funcional apelidado de Lego-Style:

  • O terceiro é outro inspirado projeto nova iorquino, apelidado de Origami:

  • E por último, talvez o que eu mais goste é um loft holandês com serviços de hotel (como um flat) chamado de Zoku Loft apresentado pelo seu fundador Hans Meyer:


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