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LOVE-PARK e as skateplazas intuitivas: equipamentos urbanos como obstáculos

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Escrevo esta postagem após ver um filme do Chris Cole (Motivation 2: The Chris Cole Story) que trata também desta que é uma das primeiras skateplazas do mundo; a Love Park na Filadélfia. Essa praça pode ser considerada uma das origens das skateplazas: equipamentos urbanos como obstáculos.*Foto do post de Mike Blabac.

O assunto é tão incrível e me levou a pesquisar mais sobre o lugar e refletir um pouco sobre os diversos projetos paisagísticos e urbanísticos aliados intuitivamente ou espontaneamente ao skate pelo mundo.

A Love Park (*link para o Wikipedia em inglês) é um ícone lendário para o skate por diversos motivos:

  1. Sua propensão intrínseca para a prática do skate (seu desenho; desníveis, curvas, bancos, escadas e demais características) sem ter sido de fato planejada para isso. Claro que o fato em si é bastante comum; o skate nasceu como transgressão de usar os espaços urbanos (principalmente as ruas) para similar as ondas do mar. Mas o esporte evoluiu e invadiu piscinas, praças ou qualquer coisa não pensada para isso mas que servisse para suas manobras. A Love Park parece ter sido projetada para o skate mas obviamente não foi. Aliás, na época em que foi construída – em 1965 – o esporte estava praticamente surgindo. Em 1976 foi colocada uma escultura que acabou dando nome ao local. Nas décadas de 80 e 90 o esporte cresceu bastante e definitivamente invadiu o local que estava dominado por moradores de rua e usuários de drogas. O preconceito contra o esporte já existia (e infelizmente se mantém até hoje), o que nos leva ao segundo motivo da fama do local;
  2. O histórico de conflitos quanto à prática do esporte na praça. Pela característica dela, como foi comentado,  foi dominada por skatistas. Pelo preconceito, que considera o skate como vandalismo, algo incômodo e perigoso, o skate foi proibido por lá a partir de 1995. Mesmo assim não deixou de ser utilizado, sendo palco portanto dos famosos conflitos com a polícia.
  3. Muitos skatistas surgiram de lá e fizeram a fama do local. Ricky Oyola, Anthony Pappalardo, Stevie Williams, Josh Kalis, Bam Magera, Tim O’connor, Fred Gall.. e claro Chris Cole, que conta um pouco do local em seu filme.  Em 2001 a praça foi palco do X-Games, ganhando mais notoriedade ainda e atenção internacional pela mídia e público ligado ao esporte. Porém, isto não mudou seu destino de pico proibido. Em 2002 foi feita uma reforma para tentar inviabilizar o skate no local; com a adição de jardineiras onde antes eram as bordas e ‘gaps’ mais utilizados.
  4. O Criador da Praça, o visionário arquiteto e então diretor da comissão de planejamento da cidade Edmund Bacon (*que trabalhou em parceria com o arquiteto  Vincent G. Kling o qual detalhou o espaço), foi um grande defensor do direito dos skatistas utilizarem o local (vide esse video), mas infelizmente não conseguiu reverter a decisão. Já com idade bastante avançada ele chegou a subir num skate na praça durante o período de proibição como forma de protesto.
  5. O ano de 2016 marcou o início da reforma que significou o fim definitivo deste local para os skatistas. Em uma tentativa de homenagem ao legado do skate no local, a prefeitura abriu a praça por meros 5 dias para os skatistas (vide o segundo vídeo abaixo) pudessem se despedir. Porém, a nova praça, inaugurada em 2018, não possui nenhuma infra-estrutura para o esporte. O poder público por lá continua, como sempre fez, proibindo a prática no local.

Já imaginaram o Anhangabaú  ou a Praça Roosevelt sendo proibidos ? Aliás, por muito pouco não passamos por algo parecido no Anhangabaú, que está atualmente (2020) em fase final da reforma que demoliu o mais característico e histórico espaço de apropriação espontânea do skate na nossa cidade….! Em breve devo escrever postagem sobre isso também. Esse tema só demonstra o quanto temos ainda que evoluir com relação ao Skate e Cidadania… 

Na Filadélfia outras pistas foram construídas (assim como no mundo todo, com o esporte em crescimento), porém isso não diminui a importância do antigo local e o seu legado. A garagem subterrânea sob a Love Park foi vendida, outros usos foram propostos no nível térreo da praça (visando mais lucro para os investidores). Todo o potencial local do esporte, tanto econômico como cultural, foi desconsiderado. Uma pena.

Mais algumas referências da Love Park:

  • Artigo em inglês sobre o fechamento da praça para os skatistas:

http://www.blacksheepstore.co.uk/blog/tag/last-days-of-love-park/

  • Artigos sobre o projeto original como cenário de jogos de skate (!) :

https://www.behance.net/gallery/43317/Tony-Hawks-Proving-Ground-(2007)-Environment-Art

http://toucharcade.com/2016/07/26/true-skate-love-park-update/

  • Petição contra a reforma/demolição da praça (infelizmente sem resultado):

https://www.change.org/p/pennsylvania-governor-philadelphia-preservation-of-the-existing-love-park-jfk-plaza?just_created=true

  • Artigo da Architizer sobre a apropriação da obra arquitetônica por skatistas:

http://architizer.com/blog/le-corbusier-architect-of-the-skatepark/

  • Artigo sobre a nova praça desconsiderando toda a história do skate no local, em favor de uma suposta revitalização:

http://www.phillymag.com/property/2015/10/27/love-park-2/#gallery-2-28

 


Fabio Lanferhttp://www.lanfer.arq.br/
Arquiteto e Urbanista pelo Mackenzie (2008). Está sempre em busca de formas inovadoras e tecnologias mais sustentáveis para criar os seus projetos.

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