10 motivos para não morar num condomínio clube horizontal e fechado

Foto de Paraisópolis - Tuca Vieira

Sempre comemoro quando algum amigo ou colega arquiteto e urbanista realiza um projeto de condomínio, ou algum projeto dentro de um. Porém, isso não significa que eu seja totalmente à favor deste tipo de empreendimento, mesmo sabendo de todos seus atrativos e comodidades.

A famosa foto acima, do Fotógrafo Tuca Vieira, não é de um condomínio horizontal, mas é impressionante e exemplifica o tipo de contraste que possuímos em nossas cidades e são multiplicados pelos municípios afora. Claro que o rico não tem culpa, mas ele tem escolha.

Exemplifico então, 10 razões para não se morar num condomínio clube horizontal e fechado:

1 -) Sustentabilidade – Por princípio, condomínios horizontais não são sustentáveis (leia-se pelo tripé: Ambiental / Social / Econômico). Primeiro pela sua baixa densidade, segundo pela impossibilidade de conter todas as atividades e serviços disponíveis de uma cidade. Se todos quisessem morar em condomínios não haveria espaço nem recursos disponíveis no planeta para as quase 6 bilhões de pessoas morando nesta tipologia habitacional.

2 -) Segregação – Conflito de classes sempre existirá em qualquer assentamento humano hoje sob o regime capitalista. Porém a segregação sócio-espacial dos grandes condomínios apenas evidencia ainda mais este conflito aumentando a indesejável polaridade rico x pobre.

3 -) Responsabilidade – As cidades são construções coletivas do espaço, sendo o principal agente de mudança o capital privado. Cada morador contribui então para o modelo de cidade que teremos.

4 -) Custo da infra-estrutura urbana – Os investimentos em infra estrutura para um novo condomínio não variam muito do que se fossem feitos para a criação um novo bairro, ou adensamento de outros existentes da cidade. Porém estes últimos atenderiam de forma mais igualitária às demais camadas da população.

5 -) Terceirização do controle sobre o território – O desenvolvimento da cidade está sujeito obviamente ao controle do regime político, no nosso caso democrático. Quando partes ou funções da cidade são concedidas à grupos de pessoas, ou ao poder do capital, perde-se capacidade de gestão, inclusive para o planejamento urbano e o atendimento das demandas sobre o território.

6 -) Favorecimento aos grandes grupos – Empreendimentos na periferia representam grandes aportes de capital em municípios com baixo controle urbanístico. Não apenas o resultado são populações desiguais, mas todo um processo de incorporação, construção, e vendas que apresentam extrema concentração dos lucros.

7 -) Bairros dormitórios – Quando reclamamos que as cidades brasileiras possuem falta de planejamento, estamos na verdade mascarando o fato de que as cidades estão sendo planejadas erroneamente, e isto isenta as respectivas responsabilidades. A população demanda, o mercado absorve/atende, o poder público regula. Todos esses fatores com seus próprios interesses. Consequências como transito, poluição, ausência de infraestruturas e serviços nas proximidades fazem parte das escolhas que a sociedade tem tomado no desenvolvimento de suas cidades. A mesma lógica serve, inclusive, para os assentamentos do programa Minha Casa Minha Vida, considerando o fato de morar isolado como a negação da cidade.

8 -) Manutenção do modelo rodoviarista – A principal questão da baixa densidade de ocupação está nas distâncias a serem percorridas entre moradia, trabalho, lazer e serviços. No nosso país isto representa a manutenção do modelo de transporte motorizado individual. Obras como a ampliação das marginais, rodoanel, viadutos, pontes e túneis jamais são suficientes frente a tal aumento da demanda.

9 -) Isolamento – Esta não é uma questão técnica, mas que apresenta grande influência psicologicamente e culturalmente. De uma forma simplificada reduzir o convívio com a diferença tende a nos fazer menos tolerantes.

10 -) Discriminação e exemplo – Com todos os argumentos acima citados, esta é a finalização. Ninguém é totalmente independente, e por isso mesmo que vivemos em sociedade. Prestadores de serviço se sentirão discriminados ou no mínimo intimidados ao entrar nos condomínios. Tratar ao próximo como igual é o que deveríamos buscar, pois são as nossas ações o exemplo para para as próximas gerações.

 


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