Projeto e construção de pistas de skate


Resolvi escrever este post sobre como projetar e construir a sua pista de skate pois este é um tema do qual me interesso bastante (quem me acompanha deve saber) e acredito que posso ajudar compartilhando algumas informações.

Você que vai contratar um projeto ou construção de uma pista precisa garantir que vai obter aquilo que deseja. Se você vai construir no quintal para seu filho, ou pretende por a mão na massa pra ter um pico melhor para poder andar vai se sair melhor se pensar em alguns dos itens que vou citar aqui.

*A foto destaque do post é do coletivo Zuk Club (*que fez a intervenção com as tintas) encontrada via reportagem do Archdaily.

São muito comuns os erros de projeto ou de obra cometidos por quem não é skatista, mas felizmente o cenário do skate no brasil está se profissionalizando, inclusive na questão da infraestrutura para o esporte: as skateparks.
Vários fatores influenciam para obter a pista ideal, adaptada para o que você precisa. Planejamento é a ferramenta principal, portanto se você está lendo este post antes de começar seu projeto começou bem! Vamos elencar alguns destes fatores:

– Pense no tipo de pista que vai construir:

As modalidades de skate evoluíram e temos tipos de pista adaptados para cada uma delas! Perceba que algumas são parecidas, outras são completamente diferentes entre si.

Vert ou Vertical / Half Pipe : Esta é a primeira imagem que vêm à cabeça dos “mais antigos”, ou mesmo daqueles que não são familiarizados com o esporte. Uma pista em forma de U, grande, com 4 metros de altura, onde se pratica e compete a modalidade.

*Fotos de Allison de Carvalho pelo site da TriboSkate

Mini Ramp : Trata-se de uma pista também em U, mas menor, para os “meros mortais”. É uma das que ocupam menos espaço e por isso são encontradas pistas desse tipo em toda a parte.

Projeto e construção de pistas de skate

*Uma das inúmeras miniramps construídas pelo mestre das pistas de skate George Rotatori.

Bowl: Pista em forma de tijela (como o próprio nome diz), que surgiu nos primórdios do esporte… Praticamente na mesma época em que os skatistas invadiam as piscinas vazias em quintais na califórnia. Os bowls mais tradicionais possuem formato de “8” e em geral as paredes terminam à 90º , além de possuírem aproximadamente 3m de altura (pistas com essas características podem ser consideradas ‘profissionais’, ou são realmente para skatistas mais “casca-grossa”)!

*Em primeiro plano o bowl da “Granite Skatepark” em Sacramento, CA – Foto do site COSKATE

Projeto e construção de pistas de skate

*”Newlove bowl” da Cheuiche Arquitetura em Viamão RS – Foto de André Müller para o ArchDaily

Pool: Esta é realmente a origem do skate em “transição”, ou seja pistas com paredes inclinadas. Não preciso nem falar muito. Conhecem o documentário “Dogtown and Z-boys – onde tudo começou” e/ou o filme baseado na mesma história? Se não conhece sugiro mesmo assistir.

*Jay adams no documentário “Dogtown and Z boys” pelo site www.dazeddigital.com

Piscinas vazias em uma grande seca e surfistas fissurados com pranchas sobre rodinhas… Realmente um roteiro pronto e uma história incrível rsrsrs. Deste item de lazer originalmente aquático que derivaram os mais variados formatos de pistas que temos hoje. Algumas pistas atuais reproduzem este conceito, veja mais abaixo.

*Festa da piscina de Steve Alba – Ontario, California em aproximadamente 1988. Foto de “Off The Lip Radio Show” pelo site do www.thesurfchannel.com

Projeto e construção de pistas de skate

*Cavepool em SP, projeto também do Cheuiche/Spot Skateparks é uma das pistas mais fiéis ao conceito de piscina que temos em São Paulo.

Banks: Esta é uma variação mais acessível aos skatistas comuns. Pista em forma de cápsula, redonda, quadrada, retangular ou em diversos outros formatos. O que a define/diferencia é ser um pouco mais ‘rasa’ que o bowl e variar nos formatos mas ainda assim permitindo andar em suas paredes, que tem ângulos mais suaves (menos verticais) que as duas anteriores.

Projeto e construção de pistas de skate

*Banks com área rasa e funda (já parecido com um bowl) em Franco da Rocha por Daniel Oristanio da InsaneRamps

*Banks com área rasa e funda na TUcasa bar em santos. Por Lanfer Arquitetura e foto do @clicksdosan

Street: Pista com obstáculos que simulam a vertente do skate de rua: área predominantemente plana com caixotes, escadas, corrimãos, rampas, pirâmides, savanas, trilhos, gaps. Podem variar de um formato mini a uma verdadeira cidade do skate com a composição de obstáculos.

Projeto e execução de pistas de skate

*Mini Street Parque do Carmo: Projeto e execução pela Lanfer Arquitetura

*Pista da Chácara do Jóckey em São Paulo, projeto da FPS (federação paulista de skate). Foto do site da www.prefeitura.sp.gov.br

– Qual o nível de dificuldade à ser atendido? :

Nem sempre uma pista maior significa que será mais difícil andar nela! Porém, claro que rampas mais altas serão usadas preferencialmente pelos skatistas mais experientes… quedas mais altas tendem a ser mais perigosas.

Projeto e construção de pistas de skate

*Criança nas suas primeiras aventuras do skate com seu pai no ‘Mini Street Parque do Carmo’

Uma pista ideal, pública deve atender aos mais diversos níveis de skatistas, e se for particular (ou específica para um evento) deve atender ao nível pedido por este cliente, o nível para qual ela for projetada.

Quanto mais altas, mais inclinadas e com transições mais “rápidas” (ou seja ângulos com raios menores, mais “bruscos”), maior será a radicalidade (dificuldade, e periculosidade) da pista.

Projeto e construção de pistas de skate

* Alex Sorgente num BS 540° Air  no campeonato “Oi Bowl Jam 2016” Parque Madureira-RJ – Foto de Júlio Detefon pelo site da CBSK

– Pistas públicas, amadoras e infantis:

Para pistas em geral utilizamos a medida de raio de circunferência para a transição, que é uma forma simples de desenhar e executar pistas.

Num projeto ideal podemos setorizar espaços para os níveis de skatistas. Para as áreas de pistas destinadas aos iniciantes usamos raios maiores, que resultarão em transições mais lentas. Para áreas mais radicais usamos raios menores, que resultarão em transições mais rápidas.

Na prática é que para uma mesma altura pode-se ter rampas mais suaves ou mais cavadas (como no surf).  Observe que para pistas mais cavadas é necessário ter uma parte plana (a parte mais baixa, o piso “flat”, ou o “zero”) maior, para dar tempo do atleta se recuperar da manobra (ou drop) de um lado e se preparar para o outro lado da rampa, ou o próximo obstáculo da pista.

Projeto e construção de pistas de skate

* Skatepark do Parque Madureira-RJ (o mesmo local da foto anterior), que é hoje uma das melhores/mais completas pistas do brasil e do mundo pela RioRampDesign

– Pistas profissionais ou para competição:

O máximo da evolução do esporte hoje. As melhores pistas do mundo utilizam praticamente as mesmas tecnologias de projeto (softwares de arqutietura e engenharia) e de execução (técnicas e materiais), seja em madeira, concreto ou aço. O importante é ter especialistas ou entendidos do skate em todas as fases de implantação do equipamento.

Refinamentos e novas tecnologias sempre irão surgir, seja nos aditivos para concreto, numa nova película para chapa de madeira, numa técnica que torna a pista mais resistente. O Design ou projeto deve levar em conta todas estas coisas.

Geometricamente falando, existe uma curva que possibilita o menor tempo de descolamento entre dois pontos utilizando a gravidade, esta é a ciclóide. Na teoria, esta curva quando utilizada num half pipe (ou quarter pipe, mini ramp, bowl, banks) irá dar maior velocidade para o skatista tanto na descida quanto na subida. Agora a questão é ver a viabilidade de execução da curva mais rápida do mundo 😛 .

Projeto e construção de pistas de skate

*Pico feito na marra por skatistas; o pessoal do ‘Shapedné‘  em Santo André. Foto da reportagem na Cemporcentoskate

– Espaço disponível:

Este é um fator primordial em projeto. É necessário fazer um levantamento do local para o melhor aproveitamento. Seja no galpão, garagem, quintal, terreno, subsolo. Área coberta ou descoberta. Frequencia de uso também deve ser levado em conta para a escolha do método construtivo e durabilidade desejada. Praças e parques devem ser feitas pelo poder público ou com autorização dele (como na foto anterior).

– Material / Método construtivo:

Pistas públicas são preferencialmente construídas em concreto armado para maior durabilidade, mas existem opções de acordo com o que se pretende. Half-pipes são geralmente estruturados em madeira ou aço, com revestimento de chapas de madeirite próprias para skate. Assim como pistas internas. Em ambientes cobertos o desgaste é menor e a dureza nos impactos nas eventuais quedas é menor. É possível cobrir a pista de madeira com camadas de concreto/argamassa e polímeros, técnica utilizada em pistas próvisórias como nos campeonatos mundo afora.

*Half Pipe de São Bernardo do Campo em reforma no ano de 2015, fotos do site abcdoabc

*Pista completa de madeira em campinas executada pelo parceiro (mestre das pistas de madeira, mas que também manja do concreto) Fuskão

– Mão na massa:

Se você chegou até aqui, obrigado! Espero que este post tenha ajudado com alguma informação relevante.
Agora é com você! Pesquise vídeos de construção de pista de madeira como estes: Mini ramp ,
Banks , Subsolo , ou de concreto: Snake run Insane+Rotatori

Pra finalizar, um vídeo da execução da Mini Street Parque do Carmo pela Lanfer.ARQ e editado pela SkateConstrói :

SKATE NA VEIA!
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9 Comments

  • Olá, bom dia! Sou recém formado em arquitetura e meu tcc foi um centro de esportes radicais, gostaria de saber se existe norma técnica para pistas de skate, raios ,inclinações etc…Se existe, por favor me informem, ou uma média….

    • Saulo, bom dia!
      Não existem normas específicas para pistas de skate, mas ainda assim muitas características da execução de pistas fazem interface com as normas comuns da construção civil. Ou seja é uma área técnica, e o ideal é tanto projeto como execução feitos por profissionais qualificados e que também andem de skate (pois apenas quem tem um bom contato com o esporte pode entender as peculiaridades do equipamento – a pista é um equipamento esportivo!).
      Sobre as normas gerais, alguns exemplos….
      Se o terreno for mole, há de se estudar uma fundação que dê suporte à estrutura, como qualquer construção… Ainda que muitas vezes a camada de rolagem funcione como um radier.
      A área da pista é também uma impermeabilização de piso… é importante prever declividade que jogue a água para fora, ou então posicionar ralos para deságue por gravidade ou em último caso (pistas enterradas ou em vale) com sistema de bombeamento.
      Existem também as normas para execução dos concretos estruturais, mais resistentes e mais próximos do traço que deve ser utilizado para pistas. Já a técnica para o desempenamento dele em pistas (para deixá-lo liso) é uma evolução das técnicas de acabamento em cimento queimado, para o qual devemos prever juntas.
      Há também normas de acessibilidade a serem respeitadas no caso de espaços públicos, principalmente nas circulações que levam ou passam pela área da pista.

      • Saulo,
        Sobre os obstáculos, com relação a formatos e dimensões não há como prever regras em norma, pois isso apenas restringiria a criatividade nos projetos sem necessariamente garantir qualidade.
        Acredito que a qualidade de uma pista é dada pela sensibilidade na leitura dos percursos e manobras, e garantida por uma boa execução – uma pista lisa, estável, resistente, durável.
        Imagine agora uma “pista” ou percurso de parkour… não há regra, certo? Mas existe claro um repertório de equipamentos ou pistas. Depois disso é a habilidade do skatista que dirá se ele consegue andar ali ou não!
        Para pistas públicas é interessante garantir que qualquer um (mesmo os mais iniciantes) possam andar e para isso ao menos uma área ou parte dos obstáculos devem ser mais baixos, com raios longos (curvas suaves), etc.
        O que manda nas transições e define a principal característica da pista são os raios, e há uma relação entre raio de curvatura e altura da pista.
        Quanto mais alta a pista mais espaço a transição irá ocupar, porém quanto mais baixo o obstáculo maior o raio em relação à altura, proporcionalmente falando.
        Para projetos “genéricos”, estudos preliminares, ou pistas executadas por quem não tem tanto domínio do assunto, é sempre melhor exagerar no raio do que faltar, pois a pista muito “cavada” (termo importado do surf) começa a ficar perigosa. Se quiser ter uma noção básica dos volumes de uma pita, desenhe ângulos de 20°, 25° até 30° a partir do piso (flat) até a altura que quer do obstáculo e depois busque a tangente pra fazer a curva. Rampas são menos inclinadas, transições podem ser um pouco mais.
        Vou passar uma relação que dá uma noção de grandeza, porém não encarem isso como uma receita pra execução:
        Até meio metro de altura use raios de curvatura de aproximadamente 3x a altura do obstáculo, para meio a um metro a um metro use 2,5x … mais de um metro a um metro e meio use 2x a altura… até dois metros 1,5x a altura…
        Outra coisa é garantir um bom espaço entre obstáculos, o chamado flat, que deve ser também proporcional. Para pistas pequenas use o comprimento de flat com aproximadamente mesma medida do raio ou até 1,5x a medida do raio para dar uma folga ou “conforto” maior para andar.. (mesma idéia do raio; melhor a mais do que a menos). Esta é a parte que depende de maior noção do equipamento e do percurso, e também um dos maiores (e mais comuns) erros em pistas.
        Espero ter ajudado.
        Boa Sorte!

        • Boa tarde Fabio
          Parabéns pelo post, acredito ser de muita valia para todos.
          Estou fazendo uma min ramp e fiquei com uma dúvida , qual traço de concreto costuma usar? E qual diâmetro do tubo que costuma colocar?
          Se puder ajudar agradeço
          Abraço e parabéns Alex

          • Alex, boas dúvidas.
            O traço eu evitei colocar no post pois parece que vira regra. Cada situação é diferente, mas tenho usado uma proporção de 4 latas de areia (que dá um carrinho) para 3 latas de pedra para duas latas (1 saco de 50kg de cimento). Nas últimas masseiras pode diminuir a pedra para facilitar o alisamento desempeno.
            Quanto aos tubos para os “copings”, o ideal é de 2,5″ (duas polegadas e meia) de diâmetro. Vai encontrar com essa medida interna (um pouco maior – que eu até prefiro fica com quase 6cm de diametro acabado) ou externa. Mas o mais importante é a espessura para que não amasse com o skate batendo – de 3mm é o ideal mas a partir de 2,5mm tá ok. Além da proteção.. O ideal é que seja galvanizado à fogo. É bem mais caro mas tem muito mais durabilidade e menos manutenção.
            Abraços!

  • Parabéns pela postagem! Sou estudante e estou fazendo uma pesquisa para um Street Park. Muitas dicas e informações importantes.

  • Boa tarde, estou trabalhando na criação de um projeto em um parque da baixada, pensei em incluir uma pista de skate na obra. Gostaria de saber em média quanto custa (de pequeno a médio porte), ou qual o mínimo a ser investido em uma espaço de aproximadamente 1,2 mil m².

    • Paloma, boa tarde. A questão de valor acaba sendo complicada e passar assim. Uma média, uma ordem de grandeza, uma estimativa por metro acaba sendo um “chute” pois mesmo com o projeto executivo pronto a variação de valores dependendo da gestão da obra é enorme! Assim como orçar uma construção com base em valores de mercado por padrão baixo, normal e alto. Construir uma pista bem feita tem suas dificuldades, suas etapas e peculiaridades; não tem paredes (ou na verdade as vezes tem! …só que não delimitando ambientes) e telhado (o que dependendo do caso pode ter também..), mas tem fundação, estrutura, acerto de terreno, impermeabilização, drenagem, acabamento, serralheria, etc etc! É quase uma construção convencional na questão de investimento mas com a necessidade do acompanhamento de algum especialista do esporte em todas as etapas, ou sob o risco de se tornar uma pista que não atende a sua prática desperdiçando recursos, espaço, tempo.
      Dito tudo isto, pode considerar a metade do custo do metro quadrado residencial ‘normal’ estimado R$ 1.682,33/m² pelo Sinduscon-SP. Portanto, algo como R$800,00/m² agora em 2019.
      Abs!

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