Skate e cidadania – urbanismo radical?


A Prefeitura de São Paulo gastou entre os anos de 2010 e 2012, R$ 55 milhões na reforma da Praça Roosevelt, no centro da cidade. A intenção deste investimento era que a praça fosse apropriada pela população, e logo a repercussão positiva entre skatistas e demais cidadãos espalhou-se. Acredito que tão rápido como aconteceu na reforma de outro de nossos símbolos, a Avenida Paulista.

Mesmo que utilizada por skatistas antes, a Praça Roosevelt virou depois da reforma um palco definitivo aqui em Sampa para o segundo esporte mais praticado no Brasil (*Segundo o Ibope o SKATE perde apenas para o futebol em número de praticantes).
Os eventos ocorridos na sequência, com a guarda civil metropolitana expulsando skatistas da praça (que tiveram alguma repercussão na mídia) me levaram a postar aqui algumas reflexões.
Os espaços públicos devem ser local para todos os esportes, todas as pessoas, todas as atividades. Quando skatistas não tinham lugar para andar faziam “vaquinhas” e construíam rampas de madeira.
O futebol de várzea é praticado no gramado de rotatórias e alças viárias, em ruas sem saída. O skate é assim também, praticado onde há um chão liso e um obstáculo de qualquer tipo.
As cidades se tornarão cada vez mais lisas e acessíveis, para o benefício de pedestres, ciclistas, cadeirantes, idosos, crianças e também skatistas.
Há uma questão de cidadania; se um idoso estiver sentado em um dos bancos o skatista não irá expulsá-lo, irá desviar e praticar manobras em outro, não vejo conflito. Porém, por ainda ser ausente uma cultura de convívio, há um projeto de separação da praça com área para skatistas e área para o público geral.
Na questão do barulho gostaria que alguém que morasse lá se manifestasse. Foi estipulado um horário de silêncio das 22:00 às 8:00, que acredito muito razoável. Inclusive muitos paulistanos moram próximos à rodovias e grandes avenidas, imagino que o incômodo não seja muito diferente.
Outro argumento muito utilizado pelos preconceituosos contra o skate é a questão do patrimônio público.  Também não considero esta questão assim tão extrema. Skate não é vandalismo, assim como não é o “Le Parkour”, BMX, dança de rua, futebol, ou basquete. É um esporte.
Já observei diversos casos onde skatistas que não conseguiam mais deslizar sobre bancos de madeira (pois as madeiras acabam ficando com bordas irregulares) colocavam eles mesmos cantoneiras de metal; facilitando a prática do esporte e protegendo o patrimônio. A necessidade de manutenção irá sempre existir, e os projetos devem e estão favorecendo cada vez mais o múltiplo uso.
Skate e arquitetura juntos não é exclusividade daqui. Veja o exemplo da Casa da Música na Cidade do Porto (Portugal), onde as curvas do piso mais parecem rampas. Exemplos não faltam.. em São Paulo mesmo o piso liso da marquise do Ibirapuera, no Rio de Janeiro a Praça XV de Novembro.
O Anhangabaú é um outro lugar que se tornou tradicional do skate de SP e como possui bancos e escadarias de pedra natural, durará por muito tempo mesmo com o mais agressivo dos esportes.
A foto da postagem, do parque da marinha em Porto Alegre, exemplifica uma das pistas mais tradicionais do brasil, projetada para o skate (assim como BMX, patins, etc). Mas o convívio com os esportes radicais pode ser pacífico em qualquer local. Hidrantes e bancos são pulados, ladeiras são descidas no downhill. O Brasil é um país que exporta skatistas e exporta também arquitetos e projetos inovadores. É visível a qualidade dos novos espaços públicos quando são projetados com esse interesse. Não vamos proibir as pessoas do seu usufruto.
Temos muito a evoluir nos esportes e na cidadania com apenas um pouco de incentivo.

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