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Soluções para as Periferias

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Este é um pequeno texto com algumas reflexões neste contexto ultra-caótico metropolitano em que vivemos. Não é um texto acadêmico, mas apena coloca em palavras algumas inquietações. As imagens são do Jacuí, bairro que teve intervenções urbanísticas e que me serviu como base para alguns dos argumentos no post.

Ainda que sejamos grandes interessados no assunto “cidade” podemos muitas vezes não ter uma clara compreensão do problema em que estamos inseridos. Talvez não tenhamos nem um correto entendimento da extensão dele. É triste pensar que mesmo urbanistas, cientistas sociais, humanistas, líderes comunitários, ativistas, entre tantos outros que têm uma maior compreensão desse nosso gigante contraste urbano e social se sentem tão impotentes diante do caos.

O urbanismo em si já é uma disciplina lenta, se baseia em informações obtidas nas transformações do ambiente construído pelo homem, com uma percepção no longo prazo, na escala de gerações. Já o projeto de edificações é algo mais tangível ao público geral, imagino que qualquer pessoa consegue ter uma leitura de como uma construção modifica um local. Esta diferença de escala (até dentro do ensino de arquitetura) é algo que tem incomodado alguns profissionais e entidades. Acredito que seja deva essa ser uma mudança no futuro da nossa atividade, incluindo até o próprio ensino, que carece hoje de uma aproximação prática. Os estudos de caso numa escala intermediária poderiam ser uma baita ferramenta de transformação para ambos.

Nossas cidades apresentam realidades e dados absurdos (nem cogito trazer tão amplas informações num post de blog – talvez um link de dados da cidade de São Paulo ao menos )…. Então é preciso se posicionar-se, não importa se á alguém que pode atuar em favor da cidade ou alguém que se encontram desamparado por uma cidade que não funciona. Lembrando que cidadãos resignados acabam abdicando de sua cidadania e se tornam apenas moradores. Muitos sofrem enquanto poucos se isolam em seus pequenos núcleos que “tentam funcionar” dentro da cidade, um “mundinho” à parte intra-metropolitano; seja num bairro ou num condomínio clube.

Esse distanciamento envolve várias questões, porém a mais complicada é a violência. Utilizada como estigma e como política de estado. Um certo bairro ou comunidade de periferia pode sim ser mais perigoso, ter maiores dados de violência, mas a violência mais perversa é a de manter a periferia excluída. É preciso lutar por mudança. Mas como?

Tivemos a quase uma década um período de maior bonança econômica no país. Vimos talvez a maior transformação social desde a redemocratização, ainda que isso tivesse refletido pouco (ou muito menos do que o esperado) na forma de se construir e reconstruir nossas cidades. Mas uma percepção importante é de como nas periferias obtém um impacto social de qualquer de transformação urbana muito mais relevante, obviamente. Isso além de questões culturais já sabidas como capacidades de sociabilização e de “ajuda mútua” que não vemos em bairros mais abastados. Há um potencial aí. Associações e lideranças de bairro são um bom começo para uma pressão política por mudança. Soluções (principalmente as econômicas) devem vir de cima para baixo, mas a pressão e a mudança cultural vem de baixo para cima.

Infelizmente até o mercado de arquitetura, profissionais que são mais atuantes no pensar e intervir na cidade, afirmam não ter a oportunidade de trabalhar com os programas públicos; de habitação social, reurbanização, tratamento de várzeas e áreas de risco e projeto de infraestruturas. Trata-se de um setor em crescimento mais ainda muito incipiente, embora dos mais importantes para a melhoria urbana em escala relevante.

Infelizmente vimos como legado da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 (embora o sucesso dos eventos) pouca transformação urbanística e social para a maioria de nossas cidades. Obras apenas de estádios não trazem necessariamente a melhoria da qualidade urbana e arquitetônica da cidade, atende principalmente à interesses políticos e empresariais, (mesmo que se possa utilizar depois estas grandes estruturas). Já as obras urbanísticas como o porto maravilha tem resultados importantes na paisagem urbana e até na identidade da cidade mas à um custo elevado (sem contar com questões de corrupção que envolvem as mais diversas escalas).

Apesar das constantes mudanças na economia, os projetos de cunho social deveriam ser mantidos. Este século deverá ser o de maiores mudanças demográficas que a humanidade já viu, com migrações populacionais em direção às cidades e as zonas costeiras. Veremos como serão alteradas nossas cidades neste contexto, são desafios que trarão também potenciais de transformação durante a nossa geração.

Atuar nas transformações em áreas antes esquecidas da metrópole será um esforço necessário da classe profissional de arquitetos e urbanistas. Trata-se do maior desafio de nossa cidade até hoje, e que revelará se somos capaz de reverter o processo de deterioração sócio-ambiental, ou se continuaremos vendendo nossa cidade aos interesses privados e excluindo a população de seu próprio espaço e do seu direito à cidade.

As pressões no espaço urbano geradas pelas mudanças econômicas não são fáceis de serem reguladas claro, de forma que elas podem infelizmente diluir possíveis avanços sociais quando nos períodos de bonança econômica; pela especulação imobiliária, corrupção, políticas de privilégio a certos setores, segregação sócio-espacial, etc. Porém é nas crises que vemos um impacto ainda maior nas classes menos favorecidas, sendo que as políticas de austeridade econômica acabam se tornando mais políticas de concentração e transferência de renda inversa. Entre os mais diversos indicadores, na parte urbanística o mais perceptível é o aumento das ocupações irregulares e favelas, jogando a população mais para longe, onde a infra-estrutura é escassa e o poder público ausente.

O “Lab Hab” (Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Usp) estuda todos estes problemas e tem muitos trabalhos importantes, achei interessante trazer como referência.
Neste link há um bom exemplo, onde é apresentado um diagnóstico do Jardim Ângela. Há uma introdução mais ‘geral’ e muito clara da situação das periferias do município de São Paulo.

Ao longo desta postagem coloquei algumas fotos de uma visita que fiz ao Bairro Jacuí, que fica em uma das áreas periféricas anteriormente conhecida por graves problemas de saneamento, drenagem, habitações precárias e falta de infra-estrutura, mas que tem se transformado muito a partir de intervenções do poder público. Faz parte de uma estratégia para a melhoria da cidade a criação de novos núcleos ou “centralidades”, com condições para emprego e lazer, junto às áreas habitacionais, reduzindo assim as distâncias e demandas por transporte resultantes do crescimento desordenado.

Importante diretriz para evitar o espraiamento ainda maior da cidade é o adensamento da região central, aproveitando a infra-estrutura já instalada. Seguindo esta diretriz está por exemplo o projeto nova Luz (que tem obviamente diversas polêmicas políticas envolvidas), a reforma de parques e espaços públicos como força de atração de moradores e empresas além de pólos educacionais e culturais.
Um outro movimento que tem atraído a atenção, apontando para nosso problema habitacional, é a ocupação de edifícios abandonados; uma possibilidade de adensamento, e a não expulsão da população pobre da região. Chegamos ao horrível fato do acidente e implosão do edifício Wilton Paes de Almeida, que inclusive é utilizado como mais um argumento (perverso) da ilegalidade como “causa” e não efeito (como realmente é) dos problemas comentados. Aqui vai uma interessante referência de reflexões sobre o assunto no “Cidades para que(m)?”

Por enquanto é isso pessoal. Coloquei aqui algumas preocupações e espero que possam contribuir para quem tiver interesse.


Fabio Lanferhttp://www.lanfer.arq.br/
Arquiteto e Urbanista pelo Mackenzie (2008). Está sempre em busca de formas inovadoras e tecnologias mais sustentáveis para criar os seus projetos.

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Arquiteto e Urbanista pelo Mackenzie (2008). Está sempre em busca de formas inovadoras e tecnologias mais sustentáveis para criar os seus projetos.
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