Soluções para as Periferias


Este é um pequeno texto sobre algumas questões que me preocupam neste contexto ultra-caótico metropolitano em que vivemos. As imagens são do Bairro Jacuí, que tem sofrido grandes intervenções urbanísticas e me serviu como base para algumas reflexões.

Ainda que sejamos grandes interessados no assunto “cidade” muitas vezes não temos uma clara compreensão do problema em que estamos inseridos, ou talvez não tenhamos clareza da extensão do problema. Talvez ainda, algumas pessoas tenham esta compreensão… e por isso mesmo se sentem tão impotentes diante do nosso gigante contraste urbano e social.

É triste vermos pessoas “paralisadas” na questão urbanística; no aspecto político e social que ela representa. É preciso se posicionar-se! Sejam aqueles que podem atuar em favor da cidade ou aqueles que se encontram desamparados – por uma cidade que não funciona. Cidadãos resignados acabam abdicando de sua cidadania e se tornam apenas moradores. Se isolam num pequeno núcleo que tenta funcionar dentro da cidade de São Paulo, o seu “mundinho” intra-metropolitano; seja na periferia ou num condomínio clube.

A periferia pode sim ser perigosa ou violenta, mas a maior violência urbana é manter a periferia excluída. Sem a compreensão do todo urbano perde-se a referência do que é a urbanidade.

É preciso lutar por mudança. Mas como? Vemos na periferia uma capacidade de sociabilização e de ajuda mútua que não vemos em bairros mais abastados. Associações e lideranças de bairro são um bom começo para pressão política por mudança. Soluções devem vir de cima para baixo, mas a pressão vem de baixo para cima.

Alguns grandes escritórios de arquitetura paulistanos, que são atuantes no pensar e intervir na cidade, afirmam não ter a oportunidade de trabalhar com os programas públicos; de habitação social, reurbanização, tratamento de várzeas e áreas de risco e projeto de infraestruturas.
Trata-se do setor mais importante para a melhoria urbana em escala relevante. Embora esteja em crescimento, ainda é muito incipiente.

Infelizmente vimos como legado da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 (embora o sucesso dos eventos) pouca transformação urbanística e social para nossas cidades. Obras apenas de estádios não trazem necessariamente a melhoria da qualidade urbana e arquitetônica da cidade, atende principalmente à interesses políticos e empresariais, mesmo que se possam utilizar depois estas grandes estruturas.
Apesar das constantes mudanças na economia, projetos de cunho social deveriam ser mantidos. Veremos portanto como serão alteradas nossas cidades, com transformações e desafios para serem acompanhados pela presente geração.

Atuar nas transformações em áreas antes esquecidas da metrópole é um esforço necessário da nossa classe profissional (arquitetos e urbanistas). Trata-se do maior desafio de nossa cidade até hoje, e que revelará se somos capaz de reverter o processo de deterioração sócio-ambiental, ou se continuaremos vendendo nossa cidade aos interesses privados e excluindo a população de seu próprio espaço e do seu direito à cidade.
As pressões no espaço urbano geradas pelas mudanças econômicas não são fáceis de serem reguladas, de forma que podem diluir um possível avanço social através da especulação imobiliária e da segregação espacial, principalmente onde o poder público é ausente.

O “Lab Hab” (Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Usp) estuda estes problemas e tem muitos trabalhos importantes.
Neste link por exemplo: http://www.usp.br/fau/depprojeto/labhab/biblioteca/produtos/plano_acaohaburb_diagnostico_jdangela.pdf é apresentado um diagnóstico do Jardim Ângela, mas há uma introdução mais geral e muito clara da situação das periferias do município de São Paulo.
Ao longo desta postagem coloquei algumas fotos de uma visita que fiz ao Bairro Jacuí, que fica em uma das áreas periféricas anteriormente conhecida por graves problemas de saneamento, drenagem, habitações precárias e falta de infra-estrutura, mas que tem se transformado muito a partir de intervenções do poder público. Faz parte de uma estratégia para a melhoria da cidade a criação de novos núcleos ou “centralidades”, com condições para emprego e lazer, junto às áreas habitacionais, reduzindo assim as distâncias e demandas por transporte resultantes do crescimento desordenado.

Importante diretriz para evitar o espraiamento ainda maior da cidade é o adensamento da região central, aproveitando a infra-estrutura já instalada. Seguindo esta diretriz está o projeto nova Luz, a recente reforma de parques e espaços públicos, e a atração de empresas além de pólos educacionais e culturais.
Um movimento que tem atraído a atenção, apontando para nosso problema habitacional, é a ocupação de edifícios abandonados; uma possibilidade de adensamento, e a não expulsão da população pobre da região. Aqui vai  uma interessante referência: http://www.edificiosabandonados.com.br/

Coloquei aqui algumas preocupações, espero que possam contribuir ao debate urbanístico.


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