Uma Visão Paulistana

Uma Visão Paulistana
Uma Visão Paulistana

A cidade de São Paulo precisa assumir que a execução do Plano de Avenidas foi uma escolha equivocada. Mas o que quero dizer com isso? Quero expor uma opinião de que a visão “desenvolvimentista” da cidade, e grande parte do caos atual de São paulo foram originados conceitualmente lá na década de 30 do século passado.
Nesta época foi elaborado o “Plano de Avenidas” de Prestes Maia, que desenhou os principais eixos de avenidas da cidade como ela apresenta hoje. Porém, o plano só foi implementado na década de 70, ou seja, quarenta anos depois de ter sido elaborado – quando a cidade já tinha se alterado bastante e novos conceitos urbanísticos estavam surgindo.
Surgiu como uma solução de investimento (alinhada a mentalidade da época), mas foi executado tardiamente quase como uma obra emergencial de salubridade.
Distanciou a água poluída da população (tratando do efeito ao invés de atuar na causa) e ainda criou espaços urbanizáveis (que antes eram as várzeas alagadiças dos rios que foram canalizados). Estes novos espaços – do tamanho de bairros inteiros – foram vendidos para companhias, e renderam muito dinheiro para os investidores. Porém, representou um custo sócio-ambiental urbano difícil de mensurar mas visível na cidade hoje.
Este plano foi o início de uma cultura higienista-desenvolvimentista (excludente por princípio – afastando os pobres para bairros mais distantes, rodoviarista – privilegiando os que possuem automóvel, além de tomar espaço público importantes da cidade para um transporte pouco eficiente) que hoje se mostra insustentável.
Anterior a este plano Anhaia Melo quis convencer, sem sucesso, de que era preciso aplicar recursos para regular o crescimento da cidade, mas foi taxado de conservador pelos urbanistas da época. Voltamos a lógica de adensar o centro ao invés de espraiar mais a cidade quase 100 anos depois.
Importante citar também os conceitos de Saturnino de Brito – que projetou a retificação do rio tietê criando parques e lagoas de contenção, um projeto abrangente (que poderia se enquadrar hoje no que entendemos como o tripé da sustentabilidade urbana: social/ambiental/econômico) mas foram “atropelados” pelo plano de Maia, ou seja: só executou o que interessava ao transporte motorizado e mercado imobiliário.
Hoje qualquer solução urbanística para a cidade, seja ela trasporte, saneamento, habitação ou espaços de lazer, envolve uma complexidade absurda devido ao crescimento errôneo da cidade e que foi, em grande parte possibilitado (*se não foi causa direta, foi ao menos indireta, juntamente com a “ingerência” política, e os elementos culturais favorecidos por sua essência) pelo plano de avenidas de Prestes Maia.
Numa postura que mistura o aspecto conservador (pelo lado da ecologia, ou questão histórico-desenvolvimentista) e até radical, revolucionário(?) ou utópico pelo lado urbanístico, defendo a devolução do espaço público para a população em detrimento dos carros. Rodoanel? Sou a favor, é sim necessário conectar a metrópole às rodovias. Mas deveria haver transporte coletivo sobre trilhos mais abrangente na região metropolitana. Ferroanel, Hidroanel e ciclovias são importantes na cidade.
Avenidas Marginais?? No conceito sou absolutamente contra! Estrangulamos os rios da pior forma possível. Mas na prática seria possível viver sem as marginais hoje? Acho que não por enquanto… Ainda assim, temos que nos imaginar com os rios Tietê e Pinheiros limpos, com parques e espaços públicos ao redor, e claro outras opções de transporte se queremos melhorar a cidade.
A população tem que exigir isso!


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